A partir de quatro de março de dois
mil e treze, nós, oficiais de justiça, passamos a participar mais intensamente
da comunidade que formamos como profissionais. A implantação da Central de
Mandados em Campinas, trouxe vantagens e desvantagens, como acontece quando
passamos por mudança em qualquer área de nossa vida.
Procurarei neste opúsculo, destacar
principalmente as vantagens a fim de não provocar em meus leitores qualquer
tipo de depressão, pois, vivemos em uma sociedade que sofre de variadas
características dessa doença avassaladora. Não quero dar motivo para mais uma.
Uma das vantagens foi a razoável unidade da
classe, que vivia segmentada e, portanto, enfraquecida. Não
lograva êxito em se mobilizar a fim de fazer reivindicações justas para a
classe. Outra vantagem consiste em conhecermos uns aos outros de forma mais
aproximada, embora, precariamente, pois somos dezenas de indivíduos diferentes.
Como em qualquer comunidade, fomos
obrigados a agir e reagir, em nossos relacionamentos com os colegas, passando a
conhecer e ser conhecidos pelos nossos pares, deixando transparecer de forma natural
nossas idiossincrasias, não por sermos socialmente falando, bons ou maus, porém,
seres humanos lutando pela
sobrevivência.
Durante aproximadamente dois anos e
nove meses, participamos dum convívio diferenciado, tendo oportunidades de
aprendermos e ensinarmos lições proveitosas que farão diferença em nossa
jornada, se atentarmos com diligência para as experiências que pudemos
vivenciar durante razoável tempo de aprendizado, na escola da vida.
A minicomunidade que formamos, possui
as mesmas virtudes e defeitos das demais que vicejam tanto aqui, como em outras
plagas, pois são formadas da mesma matéria prima: homens e mulheres
provenientes de lares imperfeitos.
Certa vez ouvi um conferencista
declarar que foi visitar uma família que fabricava brinquedos de madeira. Foi
informado que, os pedaços de madeira utilizados na pequena indústria, eram
repletos de rebarbas, que precisavam ser eliminadas. Para tanto, depois de
serem cortados nos tamanhos adequados à fabricação dos brinquedos, eram
colocados em um cadinho semelhante àquele usado para a preparação de concreto
e, acionado durante certo tempo, até serem desbastados os componentes dos
futuros brinquedos.
Observando o comportamento da nossa
comunidade, podemos concluir que o mesmo acontece na vida de seus componentes:
somos transformados através de nossas ações e reações nos múltiplos relacionamentos no dia a dia, como
profissionais, cidadãos, enfim, atores
sociais duma sociedade cada vez mais exigente.
Temos em nosso meio, indivíduos de
diversos Estados do Brasil, homens e mulheres de diferentes idades, com seus
temperamentos peculiares, vindos de lares imperfeitos. Alguns, de famílias
complicadas, onde não se praticava o amor, o afeto por excelência, formador de
cidadãos sadios e preparados para
viverem em sociedade.
Outros,vítimas de injustiças que
acontecem diuturnamente nas famílias espalhadas por todo mundo, em todas as
fases da existência humana, na qualidade de filho, pai, mãe, marido, esposa e outros
graus de parentesco, dos quais não podemos fugir. Conhecemos nossos
semelhantes, superficialmente, embora há aqueles com os quais tivemos e ainda
temos um contato mais próximo. Somos frágeis criaturas humanas.
Durante o longo tempo que exerci o
cargo de oficial de justiça, considero de grande proveito para minha vida,
tanto como profissional, como na qualidade de cidadão, as preciosas lições que
aprendi e ainda estou tentando aprender na árdua jornada da vida, inclusive
durante minha permanência na Central de
Mandados.
Aprendi lições que jamais esquecerei,
porque estão incrustadas em minha existência. Momentos de alegria e tristeza,
hesitação e confiança, próprias de cada membro dessa comunidade que sempre fará
parte de minha existência.
Não desprezo o tempo que trabalhei em
outros setores do Poder Judiciário. Aproximadamente doze anos na 26ª Vara
Criminal em São Paulo. Sete anos, na 1ª Vara Cível em Araraquara.
Aproximadamente quinze anos, na 1ª Vara Criminal e, posteriormente, na 6ª Vara
Criminal, nesta grande metrópole de Campinas.
Por onde passei deixei amigos que não
esquecerei fàcilmente, pois, muito me ajudaram quando não sabia o que fazer com
mandados complicados que tinham que ser cumpridos, e outras vezes, na solução
de outros problemas próprios da nossa vida funcional e, finalmente, como ser
humano, necessitado de companheirismo.
Não fiz menção de nenhum nome, a fim
de não fazer injustiça, porém, como qualquer outro componente dessa honrosa
classe, agradeço os colegas que de qualquer forma me ajudaram nestes quase três
anos de companheirismo e aprendizagem.
Talvez, chegará o momento que, na solidão
em que me encontrarei, chorarei de saudades de determinados episódios
vivenciados juntos e que jamais se repetirão. Sòmente em nossas reminiscências,
poderemos revivê-los, agradecendo a Deus por nos dar a alegria de conhecer
pessoas tão diferentes e importantes como as que conheci.
Campinas, 23/11/15 N. B.
Silva