segunda-feira, 13 de junho de 2016

B L O C O D, S A L A 14

    A partir de quatro de março de dois mil e treze, nós, oficiais de justiça, passamos a participar mais intensamente da comunidade que formamos como profissionais. A implantação da Central de Mandados em Campinas, trouxe vantagens e desvantagens, como acontece quando passamos por mudança em qualquer área de nossa vida.
          Procurarei neste opúsculo, destacar principalmente as vantagens a fim de não provocar em meus leitores qualquer tipo de depressão, pois, vivemos em uma sociedade que sofre de variadas características dessa doença avassaladora. Não quero dar motivo para mais uma.
          Uma das vantagens foi a razoável unidade da classe, que vivia segmentada e, portanto, enfraquecida. Não lograva êxito em se mobilizar a fim de fazer reivindicações justas para a classe. Outra vantagem consiste em conhecermos uns aos outros de forma mais aproximada, embora, precariamente, pois somos dezenas de indivíduos diferentes.              
          Como em qualquer comunidade, fomos obrigados a agir e reagir, em nossos relacionamentos com os colegas, passando a conhecer e ser conhecidos pelos nossos pares, deixando transparecer de forma natural nossas idiossincrasias, não por sermos socialmente falando, bons ou maus, porém, seres humanos lutando pela  sobrevivência.
          Durante aproximadamente dois anos e nove meses, participamos dum convívio diferenciado, tendo oportunidades de aprendermos e ensinarmos lições proveitosas que farão diferença em nossa jornada, se atentarmos com diligência para as experiências que pudemos vivenciar durante razoável tempo de aprendizado, na escola da vida.
         A minicomunidade que formamos, possui as mesmas virtudes e defeitos das demais que vicejam tanto aqui, como em outras plagas, pois são formadas da mesma matéria prima: homens e mulheres provenientes de lares imperfeitos.
          Certa vez ouvi um conferencista declarar que foi visitar uma família que fabricava brinquedos de madeira. Foi informado que, os pedaços de madeira utilizados na pequena indústria, eram repletos de rebarbas, que precisavam ser eliminadas. Para tanto, depois de serem cortados nos tamanhos adequados à fabricação dos brinquedos, eram colocados em um cadinho semelhante àquele usado para a preparação de concreto e, acionado durante certo tempo, até serem desbastados os componentes dos futuros brinquedos.
           Observando o comportamento da nossa comunidade, podemos concluir que o mesmo acontece na vida de seus componentes: somos transformados através de nossas ações e reações nos  múltiplos relacionamentos no dia a dia, como profissionais, cidadãos,  enfim, atores sociais duma sociedade cada vez mais exigente.
          Temos em nosso meio, indivíduos de diversos Estados do Brasil, homens e mulheres de diferentes idades, com seus temperamentos peculiares, vindos de lares imperfeitos. Alguns, de famílias complicadas, onde não se praticava o amor, o afeto por excelência, formador de cidadãos  sadios e preparados para viverem em sociedade.
          Outros,vítimas de injustiças que acontecem diuturnamente nas famílias espalhadas por todo mundo, em todas as fases da existência humana, na qualidade de filho, pai, mãe, marido, esposa e outros graus de parentesco, dos quais não podemos fugir. Conhecemos nossos semelhantes, superficialmente, embora há aqueles com os quais tivemos e ainda temos um contato mais próximo. Somos frágeis criaturas humanas.
          Durante o longo tempo que exerci o cargo de oficial de justiça, considero de grande proveito para minha vida, tanto como profissional, como na qualidade de cidadão, as preciosas lições que aprendi e ainda estou tentando aprender na árdua jornada da vida, inclusive durante  minha permanência na Central de Mandados.
          Aprendi lições que jamais esquecerei, porque estão incrustadas em minha existência. Momentos de alegria e tristeza, hesitação e confiança, próprias de cada membro dessa comunidade que sempre fará parte de minha existência.
          Não desprezo o tempo que trabalhei em outros setores do Poder Judiciário. Aproximadamente doze anos na 26ª Vara Criminal em São Paulo. Sete anos, na 1ª Vara Cível em Araraquara. Aproximadamente quinze anos, na 1ª Vara Criminal e, posteriormente, na 6ª Vara Criminal, nesta grande metrópole de Campinas.
          Por onde passei deixei amigos que não esquecerei fàcilmente, pois, muito me ajudaram quando não sabia o que fazer com mandados complicados que tinham que ser cumpridos, e outras vezes, na solução de outros problemas próprios da nossa vida funcional e, finalmente, como ser humano, necessitado de companheirismo.
          Não fiz menção de nenhum nome, a fim de não fazer injustiça, porém, como qualquer outro componente dessa honrosa classe, agradeço os colegas que de qualquer forma me ajudaram nestes quase três anos de companheirismo e aprendizagem.
          Talvez, chegará o momento que, na solidão em que me encontrarei, chorarei de saudades de determinados episódios vivenciados juntos e que jamais se repetirão. Sòmente em nossas reminiscências, poderemos revivê-los, agradecendo a Deus por nos dar a alegria de conhecer pessoas tão diferentes e importantes como as que conheci.
            


                          Campinas, 23/11/15                           N.  B.  Silva 

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